Harvard Business Review

Levando a força das plataformas para a saúde

Escrito por Jonathan Bush, John Fox
10 DE NOVEMBRO DE 2016

A medicina pode aprender conosco como compramos, viajamos e ouvimos música.

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Visualizando os cuidados de saúde em rede

Levando a força das plataformas para a saúde

No mês passado, um de nós (Jonathan) deu uma palestra em Stanford para um auditório repleto de empreendedores da área da saúde. Os comentários começavam como um gracejo favorito utilizado, para o efeito desejado, muitas vezes ao longo dos anos: “Eu realmente acho... que essa coisa de internet vai ser grande.” Lá, à sombra da sede global do Google, a audiência riu e pegou a deixa, assimilando rapidamente o ponto constrangedor: estamos em 2016 e essa indústria de US$ 3 trilhões da qual depende nossa vida ainda depende de faxes, pranchetas e instâncias isoladas de softwares antigos trancados nos porões dos hospitais.

Apesar do marcante histórico do setor da saúde de resistir às correntes de mudança, existem finalmente furos nessa barragem. A internet da área da saúde está emergindo nó a nó, provedor a provedor e paciente a paciente. Portanto, realmente não se perguntam mais se a área da saúde irá unir-se ao resto da economia e ceder ao inevitável. A pergunta verdadeira é como pacientes e prestadores irão reagir quando a saúde estiver conectada e o “efeito de rede” começar a se estabelecer.

Afinal de contas, temos uma boa perspectiva do que virá porque sabemos o que o AirBnB fez com os hotéis (e casas), o Waze com os sistemas de GPS e mapas dobráveis e o Uber com os táxis. Para nós, esses disruptores ilustram bem as três dimensões do efeito de rede que está prestes a transformar a área da saúde: automação administrativa, conhecimento em rede e orquestração de recursos.

Automação administrativa

O AirBnB, hoje utilizado por 50.000 inquilinos por noite, é considerado responsável direto por uma perda estimada em US$ 450 milhões por noite para os hotéis. Por trás do surgimento do seu negócio de hotelaria, está sua plataforma, que torna ridiculamente fácil transformar uma casa em um hotel. O serviço organizou, dimensionou e automatizou a miríade de detalhes administrativos envolvida de modo a minimizar a barreira de entrada e limitar o potencial de erros, falhas de comunicação ou alterações injustificadas. Ele o orienta sobre onde inserir a área e sobre que tipo de fotos atraem mais interesse e utiliza modelagem preditiva para mostrar os melhores e piores dias do ano para fazer uma reserva a um determinado preço. Ele até firmou uma parceria com o H&R Block para agilizar o pagamento de impostos.

No setor de saúde, a necessidade de automação administrativa é sentida visceralmente – e o potencial para aliviar o fardo e drenar os custos a partir do sistema é significativo. De acordo com os dados de rede da athenahealth, sabemos que uma médica regular passa, por ano, apenas 60% do seu tempo consultando pacientes e documentando seu tratamento. Ela passa os outros 40% do tempo processando 3.744 documentos administrativos, 750 formulários de campo e educacionais e procurando 600 pedidos perdidos de exames laboratoriais e de imagiologia. Quando os prestadores fizerem o que os anfitriões do AirBnB fizeram e estabelecerem uma rede, muito do trabalho que consumiu seu dia poderá ser automatizado e despachado em escala de modo que possam se concentrar em oferecer cuidados. Um serviço baseado em rede pode, de forma agregada, assumir tarefas administrativas como envio e publicação de pedidos médicos e se tornar continuamente mais inteligente e mais eficiente com feedback da rede. Na athenahealth, por exemplo, temos um mecanismo com 40 milhões de regras de cobrança (sim, existem muitas maneiras de sermos recusados) que nos permitem executar o trabalho dos nossos clientes de uma maneira mais eficiente do que eles poderiam fazer sozinhos.

Conhecimento em rede

Conforme Marshall Van Alstyne, Geoffrey Parker e Sangeet Choudary escreveram recentemente na HBR, “Com uma plataforma, o ativo essencial é a comunidade e os recursos dos seus membros.” Neste mundo conectado, o consumidor tradicional torna-se um produtor ativo que acrescenta conhecimento e valor ao sistema em um circuito de feedbacks positivos. Ao engajar o motorista como uma fonte de dados, o Waze revolucionou trajetos comuns, agregando dados em tempo real para alertar sobre engarrafamentos e sugerir rotas alternativas. O aplicativo hoje é tão efetivo que, em 70% das vezes, o Waze registra um acidente antes que o serviço de emergência receba a chamada.

Quanto mais dados de pacientes são liberados a partir de sistemas isolados e adicionados a redes, conhecimento e valor comparáveis podem ser gerados para a saúde. Recentemente, por exemplo, em uma reunião com a equipe clínica da athenahealth, líderes do American Congress of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) expressaram preocupação acerca do número de mulheres com hipertensão, que, sem saber que estavam grávidas, continuaram a utilizar inibidores de ECA, que causam má formações graves em fetos.

Realizamos uma consulta em tempo real em registros de 63 milhões de pacientes na nossa rede e identificamos 62.000 mulheres em idade fértil que receberam prescrição para inibidores de ECA correndo, portanto, risco em potencial. Fomos capazes de alertar os médicos dessas mulheres, sugerindo que eles prescrevessem uma droga diferente para hipertensão ou estimulassem suas pacientes a utilizar métodos contraceptivos efetivos. Esse tipo de medicina em rede, nome que começamos a utilizar, pode transformar a oferta de cuidados ao agregar conhecimento a uma vasta rede e fechar a lacuna entre esse conhecimento e a intervenção adequada.

Orquestração de recursos

O Uber colocou a indústria de táxis de joelhos ao perceber como extrair novos valores do excedente de capacidade do sistema. A empresa começou em 2009 com limusines pretas, utilizadas essencialmente por centros médicos universitários de transporte: extremamente caros e vazios em sua maioria. Ao explorar o excedente da capacidade e disponibilizá-lo em uma rede, o Uber gerou uma nova demanda de mercado, o que levou ao UberX e a uma próspera comunidade de 160.000 motoristas que realizam um milhão de corridas por dia.

Pense no potencial desse tipo de orquestração de recursos na área da saúde, em que o desperdício é responsável anualmente por cerca de US$ 750 bilhões. Em um dia qualquer, nos EUA, 40% dos leitos hospitalares estão vazios, seus enormes custos fixos têm um peso significativo no sistema. Ou realize consultas médicas. Em um recente estudo realizado pelo Commonwealth Fund com pacientes de todo o mundo, 52% dos estadunidenses disseram que não conseguiram uma consulta com seu provedor no mesmo dia ou no dia seguinte quando adoeceram. Quando analisamos a rede da athenahealth de 80.000 prestadores, apenas 4,4% de todas as consultas são exibidas como “disponíveis” nos 30 dias seguintes. Mas, analisando os 30 dias anteriores, percebemos que apenas 17,5% de todos os horários foram utilizados, sugerindo que existe um problema sistemático no modo como nossa indústria administra essa área crítica de acesso dos pacientes. A boa notícia é que as oportunidades para conectar uma demanda insatisfeita ou latente à capacidade não utilizada são virtualmente infinitas.

Portanto, quem são os Ubers da saúde? Bom, quem primeiro vem à mente é... o Uber. Ano passado, a empresa realizou um programa piloto para entregar 2.000 vacinas contra gripe durante quatro horas em 35 cidades. Mais recentemente, firmou parceria com uma empresa chamada Circulation para oferecer um serviço totalmente integrado que possibilita aos hospitais enviarem um Uber para transportar cuidados intensivos e pacientes idosos até as consultas – resolvendo problemas bastante caros como consultas perdidas e tratamento adiado. Existe o Pager, um serviço sob demanda que, com o toque em um aplicativo, levará um médico ao seu consultório ou à sua casa, oferecendo aos prestadores (como motoristas de Uber) um novo mercado para vender largura de banda extra. Há também o Candescent Health, que está virtualizando exames de radiologia de modo que um radiologista especializado em pulmões de crianças poderá dedicar todo seu tempo analisando pulmões de crianças ao invés de desperdiçar tempo com joelhos e cotovelos. E uma criança da zona rural de Wyoming pode ter seu exame de raio x de pulmão analisado a milhares de quilômetros pelo melhor radiologista de pulmões pediátricos do país.

Por todos os motivos, a saúde dos EUA passa por um momento crucial, com uma necessidade urgente de mudar a curva dos custos – diminuindo a velocidade com que os custos aumentam. Enquanto o governo tenta autorizar a transformação através de modelos enlouquecedores, complexos e amplamente não testados para impulsionar a economia e eficiência, talvez fôssemos mais bem servidos se buscássemos, à nossa volta, os modelos orientados pelo mercado que estão transformando o modo como compramos, viajamos, encontramos amigos, ouvimos música e muito mais. Depois que fizermos isso, a força do efeito de rede será sentido profundamente por prestadores e pacientes.


Jonathan Bush

Jonathan Bush
Jonathan Bush é CEO e Presidente da athenahealth e autor de Where Does it Hurt? An Entrepreneur’s Guide to Fixing Healthcare.

John Fox

John Fox
John Fox é Diretor-Executivo de conteúdo na athenahealth e Diretor Editorial da athenaInsight, uma revista na web sobre a área da saúde orientada por dados. Ele é autor de The Ball: Discovering the Object of the Game.

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